Ah, a arte…

Recomecei a trabalhar há pouco tempo e uma das melhores coisas disso, além do salário no final do mês, é conhecer pessoas novas, novas histórias de vida, novos sonhos, novas produções de texto, desenho, foto…

Então conheci Elen Gruber e, sem querer querendo, fuçando nos e-mails da recepção, encontrei alguns textos dela escritos como se fossem de uma criança. Achei-os lindos e conversei com ela. Como sou exibida, já falei desse bloguinho fofo e do fanzine semimorto (tadinho).

Hoje, depois de tomar vergonha na cara, finalmente visitei os sites dessa moça com cabelos de fogo e descobri um universo maravilhoso. Seus textos são incríveis e seu trabalho lindo demais.

Como sou super legal (hahahaha…), compartilharei essa “descoberta” com vocês. XD

Os links:

A vida me contou uma história (Blog da Elen)

Elen Gruber (Site da Elen)

Flickr da Elen

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Duas obras:

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E um texto que achei sensacional:

As contrações da menina

O dia estava escuro quando ela levantou. Sua garganta doía. O vento frio parecia trincar seu corpo gelado e descoberto. Estava cansada e muito confusa. Procurou aquele moletom gastado pelo tempo, mas não o encontrou. Saiu andando pela casa sem pano, sem estampas, sem vergonha, sem calor, sem nada. Sentiu-se livre, porém, pesada pelos vinte e seis anos. Não havia, sobretudo, culpa nem ressentimentos. Era leve, suave, confusa.

Aproximou-se da janela. Havia menos azul no céu. Menos sol. Menos luz. O barulho da construção mostrava que tinha vida lá fora. Vida indiferente e fosca. Ela já não se importava mais com o frio, com as cores, com a vida do outro lado. Dessa realidade alheia que só conhecia não porque a contemplava, mas porque dela se apropriava. E somente uma coisa a incomodava: a dor das contrações que precediam suas idéias.
Lembrou-se do vento e fechou o vidro da janela.
Silêncio.

Há quanto tempo não ouvia o ruído de sua respiração? De fato não se recordava. Evitara esse silêncio estridente e barulhento nos últimos tempos, pela irritante inquietação que isso lhe provocava. Mas ele estava ali, mais envolvente, mais perturbador. De repente uma força contrária lhe afastou da janela até que não pudesse mais ver o seu reflexo no vidro. Aí não sabia mais se sorria ou se ficava séria, se dançava ou se ia se deitar. Menina confusa, era. Filha de Maria e de Deus. Que acordava criança e dormia mulher. Sua cabeça era cheia de festas e velórios.

Ela sabia que nunca conquistaria o mundo, e não almejava isto, afinal ele sempre foi dela e ela dele. Ela estava nele e ele estava nela. Por mais que ela tentasse, não era possível esconder-se dele. E nem percebia que ele a tocava o tempo inteiro. Tantas cores, tanto brilho, tantas formas… Ela o apreciava e o admirava muito e continuará sempre, pra sempre, como sempre. Mas não sabia como estabelecer uma identidade entre o seu “eu” e esse mundo danado.
Já tentou separar seus pensamentos de suas experiências, mas desistiu. Acreditava que uma coisa levasse à outra e a outra levasse à coisa. Desistiu assim, por querer querendo. Pretendia construir uma boa consciência do mundo através da experiência viva da realidade. Queria tornar suas impressões e sensações intangíveis em pensamentos puros e concretos. Mas os flagrantes da vida do lado de dentro da janela a tornavam cada vez mais confusa.

Por instantes duvidou de sua coragem. Sentiu-se deprimida, sem chão e desorientada. Um tanto vertiginosa e inteiramente nua. O tempo passou e ela ficou ali, como morta viva. E o tempo passou ainda mais e mais, e mais um bocado. Ele passou assim, bem demorado, mas passou. Então vieram as dores das contrações dessa gestação confusa. Surgiram novas vontades, novas cores, e um brilho indescritível. Ela, a menina, passara por muito tempo nessa terrível gestação. Mas naquele dia sentia-se leve pela certeza do nascimento de uma nova criatura vinda de dentro dela, só dela e para ele, o mundo. Essa menina, confusa menina, faz arte. Sim, simplesmente assim.

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OBS: E adivinhe só!?! É claro que já a convidei para participar do Zine Qua Non especial 5 anos de vida/hibernação!

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