O preço de ser quem se escolheu ser

Quando criança, sem ter a noção de “essa profissão ganha mais dinheiro do que essa”, “essa profissão permite ter vida social”, “essa profissão disponibiliza o final de semana para descanso”, queria ser patinadora de supermercado. Achava incrível juntar o que se gosta de fazer com ganhar dinheiro para sobreviver fazendo o que se gosta de fazer.

Fui crescendo (apenas até 1,55 m) e mudando de carreira desejada. Sabia que amava Português, História, Geografia, Educação Física, Educação Artística, Biologia, algumas partes de Química, nada de Matemática e muito menos de Física. Pensei em Marketing, Publicidade, Letras, Artes Plásticas, Arquitetura (coitada de mim), Rádio e TV, Audiovisual, Midialogia e, por último, Jornalismo.

E não é que acertei? Mas infelizmente, junto com o acerto, veio a revelação dos problemas enfrentados pela área, tratada como qualquer coisa, sem importância, sem valor. No entanto, todos querem uma assessoria de imprensa impecável, uma revista com conteúdo legal, um site ótimo para os clientes, um material de divulgação de qualidade, uma comunicação interna incrível, um esquema de comunicação invejável.

E para isso, o que é preciso? Um estagiário que está no primeiro semestre do curso que aceite receber R$ 600, sem vale algum, para trabalhar seis horas fazendo o que um profissional sênior deveria fazer.

“Ah, mas quando eu estiver formado as coisas vão mudar!” Claro que sim! Vão te oferecer R$ 1.000 e te registrar como assistente editorial e dizer que você receberá o incrível aumento de R$ 500 após os três meses de experiência.

Quando finalmente consegue alguém que pague o piso de R$ 3.500, fazem você, querido foca, trabalhar como editor, pauteiro, revisor, fotógrafo, repórter e todas as outras funções que outros deveriam exercer. Você, inclusive, faz o trabalho de seus superiores que ainda te ameaçam se você não der o sangue e trabalhar como se fosse cinco pessoas. Não há mais horário de trabalho, não há dia certo, todos os dias e todos os horários são de trabalho. Acho que meu recorde foi de 26 horas e não me orgulho disso, porque não recebi nada a mais. “Você recebe para isso” e “Qualquer um pode fazer isso” era o que eu mais ouvia. Mas não desisti do meu sonho. Eu escolhi certo, os errados eram os outros aproveitadores e “estragadores” de sonhos e de áreas da comunicação.

A desculpa “temos que cortar custos” é sempre a mais ouvida, normalmente, por aqueles que te escravizam e ganham mais que todo mundo do departamento junto. Como “vingança”, jurei que faria o que eu queria e riria ao lembrar daqueles que me humilharam.

Acertei! Hoje faço o que gosto na área que escolhi. Tem prêmio melhor? Não ganho horrores, mas estudo para ter uma vida tranquila em alguns anos e me sinto feliz todos os dias, tirando aqueles em que hormônios tiram meu poder sobre mim mesma. Agradeço todos os dias por ter escolhido ser eu e não representar um papel e ficar reclamando mais do que reclamo normalmente.

Quando me pergunto como é ser jornalista respondo que é cansativo por ser uma carreira 24 horas, mas é super gratificante, se você realmente faz o que você quer. Escrever uma matéria, um perfil, uma notícia, e ter o retorno dos leitores é emocionante, mesmo que seja crítica. Alguém leu o que você fez. Se foi feito com sua verdade e para o leitor, sinta-se feliz e realizado, sempre buscando dar o seu melhor. Uma hora o reconhecimento financeiro vem e o perrengue mensal será reduzido.

Quando perguntam se devem estudar o que dá dinheiro ou o que querem, respondo que fazer o que se ama da melhor forma possível atrai dinheiro.

Eu estou fazendo o que amo e dando o meu melhor. E já sinto as diferenças a cada passo dado.

Obs.: Obrigada, Camila, de Recortar, Repetir e Elaborar, pela inspiração. Realmente somos “gente de humanas que faz um monte de coisa que não dá dinheiro”.

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5 comentários sobre “O preço de ser quem se escolheu ser

  1. Luciana disse:

    Me identifiquei totalmente na parte em que vc diz “Hoje faço o que gosto na área que escolhi. Tem prêmio melhor? Não ganho horrores, mas estudo para ter uma vida tranquila em alguns anos e me sinto feliz todos os dias, tirando aqueles em que hormônios tiram meu poder sobre mim mesma. Agradeço todos os dias por ter escolhido ser eu e não representar um papel e ficar reclamando mais do que reclamo normalmente.”
    Mesmo em áreas diferentes de atuação, vc na humanas e eu nas exatas, sinto a mesma coisa, até porque nossa trajetoria profissional se assemelha bastante pelo que li…[só nunca recebi o piso que eu poderia receber qdo formada, tanto que por essa razão investi forças pra ir atrás do que eu sempre quis]
    “Quando perguntam se devem estudar o que dá dinheiro ou o que querem, respondo que fazer o que se ama da melhor forma possível atrai dinheiro.Uma hora o reconhecimento financeiro vem e o perrengue mensal será reduzido.” ==> Tbm creio nisso e é o que sempre respondo quando me perguntam a respeito…
    Bom, na fé de estarmos num período em que semeamos os nossos sonhos, que possamos no futuro colher da graça de termos guiado nossos passos com os intuitos do coração, em querer fazer o que se gosta, da melhor maneira possível, e assim já ir colhendo na vida diária pequenas parcelas dessa alegria de saber que estamos sim fazendo o que é certo [pelo menos pra gente]. 😉

  2. “Acertei! Hoje faço o que gosto na área que escolhi. Tem prêmio melhor? Não ganho horrores, mas estudo para ter uma vida tranquila em alguns anos e me sinto feliz todos os dias, tirando aqueles em que hormônios tiram meu poder sobre mim mesma. Agradeço todos os dias por ter escolhido ser eu e não representar um papel e ficar reclamando mais do que reclamo normalmente.” Amei seu blog, seus textos e esse trecho serviu como uma luva pra mim. Não sou rica, faço o que gosto (professora de alemão) trabalho do meu jeito, nas horas em que determino, algumas vezes mais que os com CLT, mas sou feliz. É bom encontrar pessoas que pensam como a gente. Parabéns pelo blog.

  3. Adrien Nader disse:

    Excelente texto! Começarei meus estudos de história na faculdade em setembro, e seu texto foi uma fonte de inspiração já que estou contrariando tudo o que me foi falado a vida inteira, mas vou seguir em frente pois acredito que a vida é curta demais pra ser desperdiçada com o que não nos traz satisfação nem realização pessoal 🙂
    Parabéns por ter tido a coragem de seguir esse caminho e boa sorte pra enfrentar as dificuldades que ele trará.

  4. Vivian disse:

    Paulinha, amei o texto.
    Concordo 100% no quesito paixão. Entregar um trabalho apaixonado, independente das outras pessoas braço-curto ou se alguém outro irá reconhecer ou não, é a melhor coisa do mundoooo! =)
    Saudades de ti, garota.

  5. Eliza Lurimi Kubo disse:

    As escolhas não precisam ser permanentes, pois a vida é passageira. À medida que vivenciamos várias experiências: afetiva, social, profissional, espiritual, acrescentamos em nosso currículo maturidade emocional, mental e mudamos. O conhecimento nos liberta da ignorância. Por isso, o essencial é experimentar: hoje: jornalista, talvez amanhã: professor ou os dois juntos. “Não nos engessemos” como era outrora, o indivíduo fazia um concurso público e parava. Ficava 25, 30 anos no mesmo local:na escola, no posto de saúde, hospital, repartição pública. Não havia risco de perder o emprego, mas também não evoluía. Para tudo, há vantagens e desvantagens. Caso eu escolha uma profissão mais instável, fico mais atento, com jogo de cintura: se não der certo aqui, vou lá, dou aula, vou abrir uma empresa. Enfim, hoje em dia, a melhor característica a ser desenvolvida é a flexibilidade. E saber usufruir o dia a dia< com o que ele lhe dá de oportunidades para avançar passo a passo em todos os aspectos existenciais. "Sorria, sorria, estão te gravando!"

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